Oba! ama!

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Oba! ama!
por Lucia Helena Corrêa
De repente, é feriado internacional na minha alma negra de mulher negra. De
repente, dos meus olhos, negros olhos, lágrimas, transparentes lágrimas. E
têm um surpreendente gosto de chocolate com pimenta. Há muito tempo, meu
coração não pulsava tão forte assim. Um negro na Casa Branca! E isso é
muito
mais do que um trocadilho, ilustríssimos caras-pálidas!
Aquele não é mesmo um país qualquer. Neste cinco de novembro do ano da
graça
de 2008, Barack Obama acordou presidente de um país que não é, mesmo, um
país qualquer! Foi lá, em cinco de dezembro de 1955, na racista cidade de
Montgomery, que a costureira e militante Rosa Parks foi presa e espancada
porque se recusou a ceder o lugar no ônibus a um homem branco, conforme
determinava a lei Jim Crow, de sececção racial, que garantia todos os
direitos, regalias e prioridades a brancos. Aos negros, o chão para andar.
Ou o escuro das solitárias nos complexos prisionais...
Hoje, é feriado internacional na minha alma negra de mulher negra. Trago o
rosto inchado de chorar. Mas, pela primeira vez, em muitos anos, não é mais
de revolta, humilhação, medo e vergonha (porque, pasmem!, o racismo dos
outros é a mim que envergonha...).
Meus senhores, eu choro não é porque um homem negro, que, há 43 anos, no
Alabama, seria surrado apenas por pisar na mesma calçada por onde passasse
um branco hoje mora, come, dorme, ama e faz cocô na Casa Branca E ainda
levou com ele uma penca de negrinhos - a belíssima família Barack Obama!
Humano Barack Obama! Alah salve Obama!
Hoje é feriado internacional na minha alma negra de mulher negra. E choro
porque, hoje, quando amanheceu, eu era ainda mais negra do que sempre fui e
tinha lavada a minha alma, a minha alma negra de mulher negra. Mas choro,
principalmente, porque, um negro na Casa Branca restaura em mim a certeza de
que, um dia (Olorum me permita ainda ver isso), nós todos não seremos nem
negros nem brancos. Nem homens, nem mulheres. Nem hetero, nem homo, nem
bissexuais. Nem ricos, nem pobres. Nem cristãos, nem muçulmanos. Um dia,
seremos apenas gente... E nos amaremos, tocando nossas peles com muita ou
pouca melanina, olhando-nos nos olhos e mirando, através deles, nossas
almas, humanas almas...
Por isso, deixo a todos que lêm estas minhas reflexões, mas, em especial ao
meu irmão Barack Obama, o poema aí embaixo e a oração a Olorum, para que
lhe
conserve a vida e o senso de justiça.
Motumbá, Barack Obama! Motumbá!
NEGRITUDE...
Da próxima vez que te chamarem negro sujo, responde que, no começo, na tez,
éramos todos negros, iguais...
Depois, alguns degeneraram e ficaram assim: brancos (ou negros) demais!
Lucia Helena Corrêa (jornalista-cantora)